09/05/08

LEITURAS- 73


Ao entardecer enfrentei o aguaceiro, cujos ventos de furacão ameaçavam desconjuntar a casa. Sofri um ataque de espirros sucessivos, doía-me a cabeça e tinha febre, mas sentia-me possuído por uma força e uma determinação que nunca tive em idade nenhuma nem por causa nenhuma. Pus vasilhas no chão para receber as goteiras e apercebi-me que tinham aparecido outras novas desde o anterior. A maior havia começado a inundar o lado direito da biblioteca. Apressei-me a resgatar os autores gregos e latinos que viviam por aqueles lados, mas ao tirar os livros deparei com um jacto de alta pressão que saía de cano roto no fundo da parede. Amordacei-o com trapos até onde pude a fim de ter tempo para salvar os livros.(...)Quando passou o aguaceiro continuava com a sensação de não estar só em casa. A minha única explicação é que assim como os factos reais se esquecem, também alguns que nunca existiram podem estar nas recordações como se tivessem existido. Pois se evocava o aparecimento do aguaceiro não me via a mim mesmo só na casa mas sempre acompanhado por Delgadinha. Sentira-a tão perto naquela noite que ouvia o rumor da sua respiração no quarto de dormir, e o pulsar da sua face na almofada. Só assim entendi que tivéssemos podido fazer tanto em tão pouco tempo. Lembrava-me de estar empoleirado no escabelo da biblioteca e lembrava-me dela acordada com seu vestidinho de flores recebendo os livros para os pôr a salvo. Vi-a correr de um lado para o outro da casa lutando com a tempestade, encharcada com água pelos tornozelos.Lembrava-me como preparou no dia seguinte um pequeno almoço que nunca existiu, e pôs a mesa enquanto secava o chão e punha ordem no naufrágio da casa Nunca esqueci o seu olhar sombrio enquanto tomávamos o pequeno-almoço: Porque me conheceste tão velho? Respondi-lhe a verdade: A idade não é a que temos mas a que sentimos.Desde então tive-a na minha memória com tal nitidez que fazia dela o que queria. Mudava-lhe a cor dos olhos conforme o meu estado de espírito: cor de água ao despertar, cor de calda de açúcar quando ria, cor de fogo quando a contrariava. Vestia-a de acordo com a idade e a condição que convinham às minhas mudanças de humor: noviça apaixonada aos vinte anos, puta de salão aos quarenta, rainha da Babilónia aos setenta, santa aos cem. Cantávamos duetos de amor de Puccinni, boleros de Agustín Lara, tangos de Carlos Gardel, e verificávamos uma vez mais que os que não cantam não podem sequer imaginar o que é a felicidade de cantar. Hoje sei que não foi uma alucinação mas mais um milagre do primeiro amor da minha vida aos noventa anos.
Gabriel García Márquez -Memória das minhas putas tristes

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